Acabou Janeiro ! É verdade este Bilhete.

“ Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou. Nesses novos dias, as alegrias serão de todos. É SÓ QUERER… Todos os nossos sonhos serão verdade, o futuro já começou ! Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa. É de quem quiser, quem vier.”

É unânime relacionar esta música que toca na tv globo em todo dezembro com o fim do ano e o réveillon, essa canção singela chega ser uma memória coletiva, seria linda se não fosse tão perversa.

Campanhas publicitarias, vendendo sonhos, um mundo inatingível para uma parcela enorme da população que está lutando por questões básicas de sobrevivência, o que só gera um sentimento de falta de esperança em muitos.

Quando ouço trechos de vídeos de coachs motivacionais,  confesso que fico realmente preocupada, com os danos que este discurso de positividade desconectado total do caos da vida real pode causar,  especialmente  para aqueles cidadãos privados de suporte básico para existir com dignidade. Me preocupo muito com frases que dizem que você não obteve o dito sucesso porque não se esforçou, não quis o suficiente, porque não vibrou na energia correta.

A mídia, a publicidade, o sistema de capital, quer vendas, quer dinheiro na mão deles e boletos nas nossas, é cruel dizer a uma senhora trabalhadora como gari de sol a sol, que é só querer, que tem que vibrar correto e plim o milagre acontece.

2019, foi caótico, foi intenso, mas acabou, amém, descanse em paz. 2020 entrou cheio de promessas de desesperanças, sim, não escrevi errado, entre as expressões mais citadas em Janeiro de 2020 referindo-se a sentimentos entre brasileiros estava as palavras, medo, insegurança, falta de esperança e caos.

Mas embora a gente não acreditasse que ia acabar, Janeiro terminou também, tirando do Agosto o título de mês mais longo do ano. Bom, e você sabe que a gente não tá falando de dias, mas da carga mental, da barra que foi suportar o mês neste cenário econômico e social que estamos todos inseridos, e olha que eu estou bem empregada, imagine os 27.1 milhões de desempregados e desalentados (gente que já desistiu de procurar emprego) do país, que sentiram cada dia sem dinheiro de janeiro passar lentamente.  Talvez tenha sido as conversas sobre Corona vírus e sua possível pandemia, ainda podemos culpar o fato de que janeiro foi o mês mais quente da história, chegando a 54º de sensação térmica

Ai vem  os gurus motivacionais dizerem que o caos é importante, necessário, que tudo bem viver numa situação caótica um tempo, que toda crise gera luz e enfim.

O fato é que existe um abismo enorme entre poder e escolher viver o caos, que vamos desde já entender como privilégio de alguns, e a diferença de não aguentar mais o caos porque ele se tornou rotina – e a gente só queria um pouquinho de sossego, mas não pode parar porque precisa sobreviver. Mas será que o caos não pode ser bom como dizem os sábios gurus ?

Na verdade, pode sim, mas isso vai depender exclusivamente do quanto você pode viver o caos como opção, como resultado de uma escolha temporária sua, ou do quanto o caos é a sua rotina de obrigações diárias, sem previsão para acabar.

O caos obrigatório impacta em coisas que, pessoas como eu e você que estamos bem acomodados em nossa casinha com comida água, luz e netflix pagas, talvez nem entendem mais, mas vamos entender.

Deixa eu te contar uma história sobre rotina, a rotina da Cida ( nome fictício ):
Cida mora em Carapicuíba e trabalha em Pinheiros. Mora com a filha em um apê da Cohab que ainda está pagando. Ele começa às 5 da manhã, não para ver live no YouTube sobre como investir seu dinheiro, mas para passar um café preto às pressas e correr para o ponto de ônibus, porque se perder o das 5h30, o próximo só passa às 6h e ela chegaria (mais) atrasada no trabalho.

No trajeto de 2h, Cida não passa seu tempo ouvindo um podcast bacana, ela senta e dorme, porque foi dormir tarde preparando a marmita porque vendeu o VR para complementar a renda já escassa e vai rezando mentalmente para que ela não azede até chegar a hora do almoço. Ela chega no trabalho e fica 10 horas trabalhando, aguentando o inferno na terra de uma empresa  completamente desorganizada onde ela passa o dia apagando incêndios.

Chega a hora de voltar pra casa, pega o busão no ponto final para ir dormindo e descansar um pouco. Em casa, o ciclo começa com a preparação da comida que levará para o almoço do dia seguinte.

Enquanto isso, sua filha, Malu ( nome fictício ), diz que recebeu um e-mail de uma empresa, oferecendo uma mentoria profissional gratuita e se ela poderia participar. Elas discutem porque Malu quer participar, mas a mãe não tem dinheiro para que ela possa pegar o ônibus e ir até a empresa. Cida então vai terminar a marmita com o pouco que sobrou na dispensa, sabe como é fim de mês.

Malu respondeu o e-mail dizendo que não poderá ir, que tentou mas não conseguiu dinheiro para ir até a empresa.

Eu ficaria muito feliz em dizer que tudo isso é ficção, mas não é. Aconteceu em janeiro, e eu li isto no e-mail de newsletter da Passa, uma publicitaria maravilhosa quem acompanho o trabalho.
A gente costuma ver o discurso meritocrático rodar a internet, os livros de empreendedorismo, as lives sobre investimentos no tesouro direto, e como chegar no primeiro milhão, mas lá na base da sociedade, tem gente que não consegue sair do lugar ! Porque simplesmente não tem dinheiro pro busão. Chegar lá tem distâncias diferentes e isso pode ser muito longe ou muito perto, depende do seu ponto de partida.

O da Malu é bem mais distante do que o de qualquer outra mina que estude na ESPM, e eu não vou nem jogar o fator raça e gênero na conta pra não piorar ainda mais.

Eu já passei pelo que a Malu passou. Perdi muitas oportunidades porque elas eram literalmente inalcançáveis para alguém que mora em Mauá e precisa de 2, 3, 4 transportes para o local da vaga. Dei sorte em algumas, me dediquei muito a outras, mas confesso que já me perguntei : como teria sido minha vida se eu tivesse as mesmas oportunidades que as minas classe média ? Teria chegado mais longe, com certeza, o ponto de largada determina sim quem chega primeiro, e isso não tem haver com esforço individual.

A verdade é que a gente se desgasta demais tentando se virar nos 30 todo dia. Todo dia tentando achar uma brecha, uma oportunidade que possa ser um degrau a menos na escalada do sucesso. E cansa.

E bem verdade, que pensar em estudar, ler, meditar, fazer yoga, comer orgânicos, é um algo muito distante para muitos de nós, não vou te dizer para vibrar positivo e se esforçar direitinho que você chega lá, mas quero te encorajar a alguns movimentos:

  • Pense que se você se encontra na condição de vulnerável social, vai ser sim sempre mais difícil, mas que sim, a possibilidade de ir além da sua situação atual existe, e a busque no seu tempo, na sua força, com seu recurso.
  • Não se culpe, o sistema meritocrático quer que você acredite que não chega lá no “dito sucesso” porque é preguiçoso, é burro, não se esforçou, quer retirar toda a responsabilidade do estado e lançar nos seus ombros, mas não acredite nisso. Existem recortes sociais, e estudos sérios, que comprovam que se você nasce em determinada região em relação a outra a sua expectativa de vida pode ser reduzida em até 10 anos, existem dados sobre  categorias de opressões sociais que dizem que você terá menos ou mais chances de um conseguir um emprego de acordo com sua cor, raça, gênero orientação sexual, local em que vive.

Eu tenho uma frase que costumo dizer a mim mesma :

“Você está fazendo o melhor que pode com os recursos que você tem.”

  • E por último mas não menos importante, eu sei porque já vivi assim e não estou isenta de viver novamente nesta economia brasileira entregue aos grandes afortunados, mas viver com a “água batendo na bunda” o tempo todo pode ser o fator motivador que esta te dando forças para caminhar mais um pouquinho. Encare o caos de modo realista, mas nunca como vencido ou culpado, olhe pra tudo que está acontecendo e se questione sempre : será que tem mais alguma coisa mínima que posso fazer por mim ? será que tem algo singelo mas que pode me fazer sentir mais forte, revigorado diante do caos que estou enfrentando ?

Às vezes você vai descobrir que, se deitar 1 horinha mais cedo quando tocar o celular as 5 da manhã seu corpo vai estar mais leve, ou vai notar que ao invés de conferir as redes sociais na sua uma hora de trajeto no coletivo, você pode ler um livro maravilhoso ou escrever um poema, talvez perceba que mesmo não tendo grana pra aquela coca cola gelada você pode e deve andar com sua garrafa de água e isto vai trazer mil benefícios ao seu corpo, talvez você descubra que não tem dinheiro mesmo para comprar alimento mais saudável, mas isso te motive a buscar no google “como  plantar legumes e verduras” no espaço de terra do seu quintal, ou além, te mostre que você não tem quintal com espaço para plantar, mas que tem um terreno abandonado no seu bairro, e pode no trajeto do trampo se dedicar a escrever no celular um projeto de horta coletiva, para beneficiar todo seu bairro com comida orgânica acessível.

Talvez você perceba que consome mais produtos industrializados por serem mais baratos mas com isto ajunta muita embalagem plástica como lixo e pode pensar em separar seletivamente este lixo para dar para alguém da reciclagem, ajuda o reciclador, ajuda o planeta, e te deixa se sentido bem !

Enfim, pequenas ações, motivadas por pequenas reflexões e talvez você se sinta melhor e fique melhor.

Não crie expectativas de milagres, mas você pode e tem o direito mesmo diante do caos constante de ser otimista !

Porque muita coisa que faz sorrir é de graça.

Sinta -se abraçado e  Bom fevereiro pra nos!

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